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Soledad Villamil: “Gramado supera qualquer expectativa”

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As mãos ora tapando a boca, ora puxando os cabelos para cima como sinal de assombro, os olhos inquietos e a boca entre sorrisos e caretas para relaxar: teatral que é, Soledad Villamil permitiu que o corpo denunciasse a surpresa que sentiu ao subir ao palco do 45º Festival de Cinema de Gramado para receber o Kikito de Cristal, honraria dedicada aos expoentes do cinema latino-americano que em anos anteriores repousou nas mãos de Cecilia Roth, Juan José Campanela, Ruy Guerra e Eduardo Coutinho, entre outros.

“Fiquei muito feliz quando recebi a notícia dessa homenagem, mas o que está acontecendo supera qualquer expectativa que eu pudesse ter antes de vir”, confessou com a voz embargada, depois de ajoelhar-se para reverenciar a plateia, que a aplaudiu de pé por longos minutos.

Já com o Kikito de Cristal nas mãos, fez um paralelo entre a infância, vivida nos anos 70 sob a ditadura militar Argentina – “um período obscuro”, sobretudo porque seus pais mantinham atividade política contrária ao regime, e a recente participação no novo longa-metragem do diretor gaúcho Paulo Nascimento, “Teu mundo não cabe nos meus olhos”. “No meio daquele ambiente político pesado na Argentina, tivemos a oportunidade de vir para o Brasil. Eu não falava português e não conhecia nenhuma outra criança, mas mesmo assim, brinquei muito com eles. Agora, filmando com essa equipe novamente me encontrei com pessoas abertas à brincadeira, à amizade. Esse prêmio resume muito da minha vida”, revelou, agradecida.
Aliás, através do telão do Palácio dos Festivais, colegas de elenco do filme e próprio diretor, mandaram seus recados. Edson Celulari recordou um carinho recebido de Soledad em Buenos Aires, quando, em meio a um show em que estava presente, ainda tratando um câncer que o deixara careca, ela incluiu no repertório “Meu bem-querer”, de Djavan, canção que sabia que era a favorita do colega brasileiro. “Foi o melhor presente que eu poderia ganhar naquele momento”, admitiu Celulari.

A atriz argentina homenageada com o Kikito de Cristal, Soledad Villamil, emocionada ao receber o reconhecimento. Crédito: Diego Vara / Pressphoto

Leonardo Machado e Paulo Nascimento aplaudiram, dos Estados Unidos, a amiga e companheira de trabalho.

Já o conterrâneo e parceiro de muitos filmes – como “O Segredo de seus olhos” e “O mesmo amor, a mesma chuva” – Ricardo Darín mandou um longo depoimento: “Te admiro não só pela boa companheira de trabalho que és, mas pela energia que colocas em tudo o que fazes. Mereces muito essa homenagem”, resumiu.

Atriz surpreende voltando ao palco para cantar

Se é verdade que Soledad Villamil não esperava tanta emoção na cerimônia de entrega do Kikito de Cristal, o público certamente poderia devolver a expressão de surpresa, porque a atriz também extrapolou os limites do esperado e, após fazer um discurso na tribuna e retornar à seu assento, decidiu voltar para o palco e soltar a voz no improviso, apenas para atender à plateia que, em pé, pedia: “canta! Canta! Canta!”

Além de atriz reconhecida, Soledad também tem uma carreira consolidada na música e seu mais recente álbum “Ni antes, ni después” está sendo lançado mundialmente nesta sexta-feira, 25 de agosto, pelos canais Spotify e iTunes.

Quando o apresentador Roger Lerina deu o aviso – Soledad já estava quase sentando na poltrona do cinema – o público veio abaixo e pediu a palhinha. A artista aproveitou o gancho: “Não vou cantar música desse disco, que vocês vão ouvir ou até comprar amanhã”.
Optou então por fazer uma reverência musical à arte da imagem e do som, razão de sua homenagem em Gramado. “Na Argentina – no Brasil também – temos uma tradição muito grande de mulheres cantoras e atrizes e uma delas é Tita Merello, uma grande estrela dos anos 50, sem querer comparar, é como se fosse a Carmen Miranda’”, anunciou.

 A atriz argentina homenageada com o Kikito de Cristal, Soledad Villamil, atende ao público no tapete vermelho. (Crédito: Edison Vara / Pressphoto)

Feminista e militante do cinema latino-americano

A canção “Se dice de mí” que Soledad Villamil levou ao palco, à capella, tinha bem o ar das interpretações de Carmen Miranda, com versos irônicos e uma levada musical acelerada, com cadência de tango.

A letra é um depoimento de uma mulher reivindicando seu espaço: “Se dice que soy fiera / que camino a lo malevo / que soy chueca y que me muevo / com un aire compadron (…) / Si charlo com Luis, con Pedro o con Juan / hablando de mi los hombres estan. / Critican si ya La linea perdi / se fijan si voy, si vengo o si fui”.

Tema importante à atriz, como a escolha revela, e que ela já havia abordado durante a coletiva de imprensa que concedeu à tarde, na fábrica da Cristais de Gramado, onde deu início à produção do Kikito de Cristal do próximo ano, como já é tradição no festival. “O cinema é um mundo machista, por sorte, hoje estamos mudando essa realidade”, referiu.
Para exemplificar, mencionou a disparidade salarial entre homens e mulheres que exercem as mesmas funções na indústria cinematográfica – inclusive em Hollywood. “Apenas 20% dos filmes no mundo são dirigidos por mulheres, é um terreno em que há muito para percorrer ainda”, completou.

Soledad também se revelou uma militante do cinema latino-americano, e se uniu aos discursos de várias personalidades presentes em Gramado que reivindicam maior espaço para as produções regionais tanto em seus países de origem como nas telas vizinhas. “Se não pudermos contar nossas próprias histórias, o que vai nos restar?”, questionou Soledad.

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