Mulheres relembram acidente com voo da TAM e contam como refizeram a vida 10 anos após mortes de familiares

Esposa de vítima da tragédia da TAM relembra dia do acidente 10 anos depois

Era 18h48 de 17 de julho de 2007, uma terça-feira chuvosa, quando o Airbus A320, que fazia o voo 3054 da TAM, tocou a pista molhada do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Sem conseguir frear, o avião cruzou a Avenida Washington Luís a 170 km/h e bateu contra um prédio da própria companhia aérea, atingindo também um poste de gasolina.

A aeronave havia partido de Porto Alegre. O choque, seguido de explosão, causou a morte de 199 pessoas.

O maior acidente aéreo do país completa 10 anos nesta segunda-feira (17). Cada família vive a perda de um jeito. Na véspera da data, o G1 ouviu as histórias de duas mulheres. A tragédia custou as vidas do filho e do marido.

De um lado, está a psicoterapeuta Elisabete Vanzin Costa, de 57 anos. O primogênito, Vinícius Costa Coelho, era um dos passageiros. Ele tinha 24 anos e era piloto da companhia, mas não fazia parte da tripulação do voo 3054.

Na última década, Elisabete decidiu refazer as viagens do filho. Ela vê, nos lugares por onde passa, uma lembrança do jovem que adorava voar. Ela venceu a depressão, mas não abandonou a terapia, e acredita que vai reencontrar Vinícius algum dia.

Já a dona de casa Joice Helena Vinholes Oliveira, de 58 anos, precisou assumir o papel duplo de pai e mãe de duas adolescentes. Ainda em luto, após a morte do companheiro com quem foi casada por mais de 20 anos, superou um câncer de mama e encontrou conforto no espiritismo.

As duas meninas viraram mulheres. Até hoje, elas lembram-se de momentos simbólicos da vida que gostariam de ter dividido com o pai: a carteira de motorista, a aprovação no vestibular, a formatura, o primeiro emprego...

Mãe refaz viagens do filho para sentir-se próxima a ele

"O Vinícius é muito justo. Ele é muito correto com tudo". É assim, no tempo presente, que Elisabete descreve o filho, mesmo 10 anos após a morte dele. "Mas ele está presente", ressalta ela. "E certamente ele está aqui agora neste momento, dizendo: sigam em frente", completa.

Apesar da serenidade para falar sobre o assunto, o pedido demorou a ser atendido. Elisabete seguiu em frente, sim, mas não foi fácil.

Elisabete perdeu o filho Vinícius no acidente da TAM. Ele era piloto da companhia, mas morreu a bordo como passageiro do voo 3054 (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Em um ano, além da tragédia da TAM, que lhe tirou o filho mais velho, Elisabete também perdeu a mãe. "A vida não nos diz assim: 'Tá, agora chega, parou de sofrer'. Não é apertar um botão. Seis meses depois que meu filho partiu, a minha mãe partiu. Eu era necessariamente obrigada a conseguir lidar com aquilo que estava dentro de mim, que eram muitas perdas. Foi muito, muito difícil", desabafa.

A psicoterapeuta parou de trabalhar, entrou em depressão e passou meses à base de antidepressivos. "O dia do acidente foi horrível, horrível. Quando eu cheguei do consultório em casa, larguei a bolsa no sofá e vi o rabo do avião na televisão. Naquela hora eu levei uma paulada na cabeça", recorda.

"Eu fiquei sentada num sofá por quase cinco anos".

Hoje Vinícius teria 34 anos de idade. E já teria realizado sonhos, como o de ser piloto, e isso conforta um pouco a mãe. "Ele nunca foi de brincar com carrinho, o brinquedo dele sempre foi avião", frisa.

Com 18 anos recém-completos, ela lembra que o rapaz procurou o Aeroclube do Rio Grande do Sul (ARGS). Em dois anos, já contratado pela TAM, passou a pilotar voos domésticos e viagens para países do Mercosul. Em breve teria uma carreira internacional.

"Nós somos de uma família de aeronautas. Meu cunhado é aeronauta e, na época, era piloto da TAM. Ele, é claro, ajudou o Vinícius, incentivou, e o Vinícius foi. Ingressou na TAM e ali conseguiu realizar o sonho dele e o meu", conta.

Mãe e filho ansiavam pelo dia em que ela estivesse a bordo de um avião comercial pilotado por ele. O destino foi Buenos Aires, duas semanas antes da tragédia em Congonhas.

"Nós realizamos o nosso sonho. Ele queria conhecer todas as capitais brasileiras. E na quinta-feira anterior ao acidente, ele conheceu a última, que foi Rio Branco. Ele me ligou e disse: 'Mãe, conheci a última capital brasileira que faltava. Todos os nossos sonhos estão realizados', ele me disse", emociona-se.

Vinícius morreu aos 24 anos no acidente com o avião da TAM, em 2007 (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Curiosamente, é viajando, e dentro de um avião, que Elisabete se sente mais próxima do filho. Um cenário que pode ser um pesadelo para qualquer um que tenha perdido alguém na tragédia de Congonhas.

E assim, entre embarques e desembarques, ela decidiu refazer alguns passos de Vinícius, conhecendo as cidades preferidas dele.

"O que me fazia sair desse sofá era o que eu projetava, que era viver a vida com ele. Então eu viajei para todos os lugares onde ele viajou. Eu refiz os passos dele. Fui para Buenos Aires, Nova Iorque, Paris. Viajei o Brasil inteiro, conheci todas as capitais. Sinal de depressão? Sinal de depressão, sim. Mas eu me sentia preencher dele, como se com aquilo eu fosse resgatar a presença dele", comenta.

O espiritismo, segundo ela, também ajudou a cicatrizar a ferida. A doutrina a fez compreender um pouco melhor a perda. "Eu sempre fui espírita. Meu filho foi criado na religião espírita, os dois. Isso me ajudou, sim. Mas eu briguei com Deus. Eu culpei ele. Por que ele tinha que levar o meu filho? Por que ele foi tão egoísta assim? Mas depois eu percebi que a egoísta era eu, que queria que o Vinícius ficasse aqui", explica.

Através de cartas psicografadas, Elisabete diz ter tido notícias do filho. Ela as recebeu de 2007 a 2015. As mensagens a fortaleceram para seguir adiante.

"Eu busquei ouvir muito o Vinícius. Eu tenho mais de 300 cartas psicografadas dele aqui. Ao longo desses anos todos, ele foi me mandando mensagens e eu fui guardando. E isso me confortou", afirma.

Cartas psicografadas confortam mãe que perdeu filho no acidente da TAM em 2007

Mulher fica viúva e vira 'pãe': 'Ele teria orgulho delas'

Joice ficou viúva na noite de 17 de julho de 2007, e criou as duas filhas adolescentes (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Às vezes, já tarde da noite, Joice imagina que o marido está prestes a chegar em casa, após mais uma viagem de trabalho. Ela pensa ouvir o barulho de chave torcendo a fechadura da porta. Mas o ruído não passa de um sonho.

Em 10 anos, a mesma cena se repete na imaginação de Joice e das filhas, Renata e Fernanda, hoje com 25 e 27 anos. Mesmo passada uma década da morte de Fernando Antônio Oliveira, com 53 anos na época, a viúva custa a aceitar que o engenheiro eletricista estava mesmo naquela aeronave que ardeu em chamas, como mostrava o noticiário na televisão.

A perda fez Joice sucumbir à tristeza profunda. Ainda deprimida e revoltada, foi obrigada a tornar-se "pãe" - pai e mãe de duas então adolescentes, e ainda recebeu o diagnóstico de câncer de mama, que ela acredita que tenha origem emocional.

"Eu estava doente, muito doente", afirma. Foram anos de terapia e 25 sessões de radioterapia para vencer a doença.

O apartamento da família em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, é cheio de referências a Fernando. Retratos espalhados pelos aparadores do cômodo mostram um homem sorridente, de cabelo grisalho e óculos, quase sempre acompanhado da mulher declaradamente apaixonada pelo marido.

"Ele foi meu primeiro amor. E único", diz, com a voz embargada. "Eu tinha 15 anos quando conheci ele, e ele tinha 20. Teve briguinhas, teve idas e vindas, mas no final era pra ser nós dois, juntos. No final entre aspas, né? A gente sonhava em terminar a vida juntinhos, velhinhos. E nesse dia tudo foi interrompido. Nossos sonhos, projetos", lista.

Joice e Fernando foram casados por mais de 20 anos (Foto: Rafaella Fraga/G1)

A lembrança também está na camiseta que Joice veste, uma peça preta cuja estampa é o último retrato de Fernando, uma 3x4 registrada a pedido do setor de Recursos Humanos da empresa em que ele trabalhava. A mulher folheia fotos antigas e não esconde a dor e nem resiste às lágrimas.

"Ele vai fazer falta sempre. Eu sinto falta dessas coisas todas", lembra. "Dele fazendo churrasco e me alcançando o aperitivo pela janela enquanto eu preparava a maionese", cita.

Antes de embarcar no voo 3054, o engenheiro eletricista havia passado o final de semana em casa, com a mulher e as meninas. Depois, ele voltaria para Vitória (ES), onde trabalhava em uma obra da Engevix. Naquela ocasião, porém, Fernando tinha decidido partir um dia depois do previsto, para ficar mais tempo ao lado da família.

"Quando ele chegou, me falou que ia embora na terça e ele sempre viajava na segunda. Ele me disse: 'Vou embora na terça-feira porque quero ficar mais um pouco com vocês'. A gente ficou feliz da vida, né?", lembra ela.

Logo depois do último almoço com a esposa, vestiu jeans e camisa novas, que havia comprado no shopping dois dias antes. Aparou a barba e borrifou o perfume de Joice.

"Vai sair com cheirinho da mulher?", perguntou ela. "Eu quero ir com teu cheirinho", respondeu ele. E seguiu, rumo ao Aeroporto Salgado Filho.

À noite, já com as filhas no quarto fazendo a lição de casa, Joice ligou a TV e viu a notícia sobre o acidente. "Eu achava que era um avião cargueiro que tinha se chocado. E lembro como se fosse hoje, falei para as meninas: 'Nossa, olha lá o que o piloto fez. Que barbeiragem!' E pedi para que desligassem a televisão, não queria ver aquilo", recorda.

O telefone tocou uma, duas, três vezes. Todo mundo queria saber notícias de Fernando. Foi quando Joice se deu conta que o marido estava naquele avião.

"Ali, o meu mundo virou de cabeça pra baixo".

Foram 19 dias em São Paulo até 4 de agosto, quando o nome de Fernando finalmente figurou na lista de vítimas identificadas.

"Dele mesmo não sobrou nada. As chaves estavam escuras, mas não derreteram. A carteira dele, com o dinheiro e fotos, intactas. Eu tinha costume de fazer aquelas coisinhas no Ano Novo, sabe? De lentilha, pra dar sorte. E estava direitinho dentro da carteira, dobradinho", descreve ela. Fernando foi reconhecido por DNA.

De volta ao Rio Grande do Sul, Joice levou a urna com as cinzas a Pelotas, no Sul do estado, terra natal do marido, e foi obrigada a refazer a vida. Afinal de contas, tinha duas filhas pra criar.

Porém, meses se passaram até que aceitasse ajuda. Amigos, parentes e até mesmo as meninas esbarravam na relutância da mãe.

"Eu perdi a fé. Briguei com Deus. Comecei a me desentender com as minhas filhas, de tão doente que eu estava. E não aceitava ajuda de ninguém", recorda.

De tanto insistir, uma amiga conseguiu levá-la a um centro espírita. Além da religião, ela encontrou refúgio para abrandar a dor nas sessões de terapia. Duas, até três por semana. Foi medicada com ansiolíticos e calmantes. Só conseguia dormir depois de ingerir os comprimidos.

"Eu tinha que me acalmar, gente".

"Eu resolvi mesmo aceitar ajuda quando vi que por qualquer coisa eu brigava com as meninas. Elas pisavam em ovos para lidar comigo. Elas não sabiam como iam me encontrar! Se elas chorassem, me irritava. Isso não é coisa de gente normal, né?", reconhece.

Dois anos depois da morte do marido, um incômodo no seio direito a levou ao médico. E ainda se recuperando da perda de Fernando, ouviu a confirmação: era câncer.

"Mais uma vez, o chão sai dos teus pés. Comecei a chorar. Chorei tanto. A primeira coisa que pensei foi nas minhas filhas. E agora? Elas ainda estão passando por uma coisa e já vão me perder?".

Joice passou por uma cirurgia e tratou o tumor com radioterapia. Ao todo, foram 25 sessões e cinco anos de tratamento.

No período, viu as filhas, então meninas, virarem mulheres. "Hoje eu tenho o título de 'pãe', né? Sou pai e mãe. E é um saco ser pai, diga-se de passagem", brinca.

"Mas as meninas nunca me deram trabalho nenhum. São estudiosas, maravilhosas, lindas. O Fernando deixou um exemplo para elas, que fossem sempre, sempre verdadeiras. Ele teria orgulho delas", garante Joice, também orgulhosa.

Em cartas, filhas descrevem os 10 anos sem o pai

Renata e Fernanda eram adolescentes quando perderam o pai. Tinham 15 e 17 anos, respectivamente.

Fernando morreu aos 53 anos e deixou a mulher e as duas filhas, Renata e Fernanda (Foto: Arquivo pessoal)

A pedido do G1, as duas escreveram cartas, em que contam que se passou em 10 anos e o que gostariam de ter compartilhado com ele no período. A carteira de motorista, a aprovação no vestibular, o primeiro emprego, formatura, casamento...

Abaixo, as cartas transcritas das irmãs:

Dez anos se passaram desde nosso último encontro físico: aquele beijo rápido que te dei na bochecha, com um desejo de boa viagem, de quem já estava atrasada para a escola. E nestes 10 anos, não passei um dia sequer sem lembrar-me de você, sem sentir saudades...

Neste período muita coisa mudou, pai. Suas meninas se tornaram mulheres e a maturidade precisou chegar cedo demais.

Mas tenho certeza que tens orgulho de nós, porque nunca deixamos de lutar. Desde o dia em que te levaram de nós, até os tempos de hoje, brigamos por justiça. Criamos uma nova família, chamada Afavitam [nome da associaçao de vítimas], e mesmo guerreando juntos pela verdade e pela justiça, a impunidade e o poder falaram mais alto outra vez em nosso país. Todos indiciados absolvidos! Isso mesmo, TODOS! É como se aquela tragédia anunciada tivesse acontecido ao acaso.

Por falar nisso, tu ficarias decepcionado e revoltado se visse o estado em que se encontra nosso Brasil. Violência é clichê, impunidade é tradição e a política uma vergonha cada vez maior. Conforta-me saber que estás em um lugar melhor, olhando por nós que aqui continuamos.

Mas infelizmente essa impunidade toda não deixou a ferida cicatrizar totalmente. Tua ausência ainda dói, paizinho. Dói saber que te levaram junto com outros 198 seres de luz e que a justiça dos homens calou.

Achei que nunca mais me sentiria feliz por completo, mas confesso que houveram muitos acontecimentos felizes nesses dez anos. Alguns mais grandiosos, outros mais banais, mas a saudade da tua presença física apertou forte em todos eles, todinhos, mas a tua presença espiritual sempre foi sentida.

Queria ter te levado para dar uma voltinha de carro quando tirei minha carteira de motorista. Sei que tu acharias o máximo e desejei muito que ainda estivesse aqui para isso.

Além disso, ingressamos na faculdade, eu e a Fernanda, como tu sempre quis e incentivou. A Fernanda foi para o curso tradicional que tu sempre elogiou, direito. Já eu, resolvi inovar e optar por um curso superior novo no mercado, estética e cosmética. Sei que tu me apoiarias da mesma forma.

Na homenagem aos pais de ambas as cerimônias de formatura, chorei muito tua ausência, mas te senti conosco. A mãe, sempre grandiosa, mesmo tão pequenina em tamanho, te representou muito bem. Aliás, continuou firme e forte nos conduzindo para o caminho do bem.

Queria que soubesse, também, que desisti do magistério no ensino médio, mas ironicamente, por obra do destino talvez, hoje sou docente do curso e da universidade em que me formei. E tem mais, sou inclusive mestra. Defendi minha dissertação no dia 27 de junho deste ano.

A Fernanda não preciso nem falar que passou na OAB e que sempre se destaca em seu trabalho. Tenho certeza que estarias orgulhoso de nós, como sempre foi.

Para completar as boas notícias que não pudemos compartilhar nesse mesmo mundo, encontrei o amor da minha vida, pai. Um homem inteligente, de caráter e princípios, que me ama e me valoriza. Tenho certeza que vocês seriam bons amigos. Gostaria muito que tivessem se conhecido.

Nos casamos dia 8 de outubro de 2016, temos nossa casa e batalhamos juntos pelos mesmos ideais. É claro que pensei o tempo todo em ti no percurso até o altar. Como eu gostaria de ter entrado na igreja de braços dados contigo meu pai, meu herói, sempre lindo e sorridente.

E mais uma vez a mãe te representou muito bem. Mas independente da presença física, entrastes comigo em meu pensamento, meu coração e em um lindo terço que carreguei e que fiz em homenagem a ti, com a tua foto, paizinho.

Graças aos teus ensinamentos e tua essência que ficou em nós, nunca desistimos de viver! Não foi fácil, mas o amor que sentimos por ti nos deu forças para seguir em frente e para te orgulhar.

E aqui seguimos, cheias de saudades, mas com a certeza de um reencontro. A vida não acaba aqui, com certeza não! Continue zelando por nós e até logo, meu “véinho”.

Te amarei hoje e sempre, para sempre!

Renata Vinholes Oliveira da Rocha

Em seu casamento, Renata usou um terço com a foto do pai (Foto: Arquivo pessoal)

Hoje é dia 13 de julho de 2017, exatos 10 anos que você veio pra casa de folga, e que seria o último final de semana de tua vida aqui na terra, nosso último encontro, nosso último adeus. E não foi um final de semana comum... lembra que havias acabado de fazer uma cirurgia e estavas com restrição alimentar? Parecia que sabias não ia mudar nada ter comido uma barra de chocolate comigo e rapadurinha de amendoim. E não mudaria mesmo! Que bom que compartilhamos desse momento.

E nosso bate-papo cabeça após assistir filme e eu te contando sobre meu receio de nunca aprender a dirigir? Saudades disso, né?

Ainda lembro claramente o nosso último abraço de despedida. Eu indo para a escola, ainda perguntei se tu virias para os meus 18 anos. Te abracei e senti que me puxaste mais forte, como se estivesse dando adeus para sempre.

E esse foi o nosso último contato físico (neste momento paro de escrever e meus olhos marejam... estou me debulhando em lágrimas ao mesmo tempo em que te sinto tão perto de mim).

As horas passaram e eu nunca imaginaria que dentro de instantes minha vida mudaria para sempre. Pai, nunca foi tão horrível ouvir teu nome em uma lista de passageiros embarcados naquela fatídica terça-feira de 17 de julho de 2007. Naquele momento, vi meu mundo desabar. Que dor horrível, que difícil aceitar e compreender o que estava acontecendo. Não parecia real.

Confesso que, na minha ingenuidade, esperei dias para aparecerem câmeras e me dizerem que tudo não passou de uma pegadinha. Até hoje não sei como suportei. Foram noites em claro, muitas lágrimas, a ida ao local do acidente, aquele cheiro de fumaça. Com apenas 17 anos e me vi adulta e ao mesmo tempo uma criança assustada conhecendo uma realidade até então tão distante de mim.

É, meu pai, tive que seguir a vida, mesmo com a tua ausência física. Nunca me imaginei órfã tão cedo, mas sei que de algum lugar desse universo imenso tu ainda zela por mim.

E agora, passados 10 anos da tua partida, faço uma retrospectiva rápida dos momentos marcantes da minha vida e que tu não podes ver de perto, ou melhor, eu não te vi, mas te senti tantas vezes próximo.

Então, meu pai, adoraria ter te ligado quando, nos meus 18 anos, passei na prova prática de direção. Logo sobre o meu medo de nunca aprender a dirigir que te contei no nosso último encontro. Ah! Que orgulho sentirias da tua menininha!

Logo depois, minha formatura no magistério, profissão que não segui, mas que tem meu respeito e admiração. E então veio o vestibular. Escolhi direito, sim! Um dos únicos cursos que nunca havia passado pela minha cabeça. Dois primeiros lugares! Pai coruja estaria com sorriso de orelha a orelha, se bem conheço.

Veio a formatura, o exame da Ordem, o primeiro emprego. Tantos momentos que gostaria de ter compartilhado contigo, meu querido pai.

Hoje sei que, de alguma forma que não posso enxergar com meus olhos, mas posso sentir com meu coração, estavas na primeira fileira da plateia aplaudindo de pé o teatro da obra que criaste e admiraste, TUA FAMÍLIA.

Meu pai, estou com 27 anos e hoje posso dizer com toda convicção que tenho orgulho da pessoa que me tornei ,graças aos teus ensinamentos e exemplos de boa índole, verdadeiro e justo. Um dia meus filhos saberão quem foi o avô deles: um ser humano extraordinário, eu diria.

Pai, hoje compreendo que a nossa despedida foi apenas física. Tu vives para sempre em meus pensamentos, minhas lembranças e agora no mundo espiritual.

Fiquei feliz em receber notícias suas, de que és um líder de um grupo em uma colônia espiritual. E não poderia ser diferente, deve estar trabalhando apaixonadamente, como sempre.

É incrível, pai, toda vez que me olho no espelho vejo um pouco de você em mim. Isso me traz conforto e paz! Como dizia o poeta, saudade é o amor que fica.

O que me resta hoje é a saudade. E aqui me despeço, não mais como um adeus, mas como um até logo.

Um abraço cheio de luz, com todo o meu carinho e admiração!

Fernanda Vinholes Oliveira

Mãe e filhas se uniram após a morte de Fernando, no acidente do voo da TAM (Foto: Rafaella Fraga/G1)

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